Desejo e Reparação (tem spoiler)
⊆ 10:27 by Ravenna Camb | ˜ 0 comentários »Já a princípio deixo claro que não li a obra de Ian McEwan, por isso a crítica se refere exclusivamente ao filme. Pretendo é claro ler o livro, mas quando o fizer volto com uma opinião mais profunda. Por hora fico por escrever sobre a obra cinematográfica.
Fico aliás, aliviada de finalmente poder chamar de ''obra cinemtográfica" um filme indicado ao Oscar, que é normalmente um prêmio dedicado aos mais vendidos que assume a máscara de premiação artística. Dessa vez tenho de concordar plenamente com as sete indicações, execrar a idéia de que Desejo e Reparação tenha ganhado apenas um Oscar.
Introduzindo o enredo principal...
Briony é uma garota de 13 anos que conclui sua primeira peça, ávida pela atenção dos parentes e amigos na chegada de seu irmão Leon Tallis. Ao mesmo tempo desenrola-se a históra de Cecília e Robbie, ná clássica fórmula e no caso muito bem desenvolvida e empregada da moça rica e pretendente pobre. Conduzida por sua imaginação e por um evidente desejo oculto por Robbie, Briony após presenciar uma cena entre sua irmã e ele, parece acreditar, ou se convencer de que ele é, segundo suas palavras, um maníaco sexual. Quando sua amiga Lola sofre um abuso sexual no meio da noite, sem ter visto seu agressor, Briony mente à polícia dizendo que viu claramente Robbie ter relações com Lola, fazendo assim com que ele seja preso injustamente e separado de sua irmã. Quatro anos se passam e Robbie aceita a proposta de ir para a Segunda Guerra ao invés de permanecer na prisão. Cecília e Briony tornaram-se enfermeiras, sem nada do luxo de sua adolescência. Então iniciando o desenvolvimento das conseqüências indiretas dos atos de Briony.
Destaque absoluto para a excelente atuação de James McAvoy (Robbie), Saoirse Ronan (Briony aos 13 anos) e Romola Garai (Briony aos 18). O protagonista consegue passar perfeitamente a inocência inicial e o amadurecimento do seu personagem, beirando a amargura e a desolação obtidas na guerra. Para um ator jovem, me surpreendeu muito. Quanto a Saoirse, posso dizer que é sem dúvida uma das melhores atuações de criança/adolescente que já vi, o fato é que ela parece, ao contrário da maioria, ter compreendido que um personagem é um ser humano com conflitos e não uma mera figura numa história. A garota convence, fazendo com que o público ao mesmo tempo a odeie e compreenda cada um de seus problemas, bem passados pela excepcional expressão da atriz, tive a impressão de ler seu personagem num livro, nos mínimos detalhes ao vê-la atuando. Um trabalho muito bem prosseguido e terminado por Romola Garai, que num antônimo muito bem pensado, larga de mão a expressividade para entrar numa apatia de trauma e amargura, passando muito bem a transformação que a culpa gerou em Briony.
Ainda comentando sobre atuações devo destacar o único defeito do filme. Keira Knightley (Cecília) deveria simplesmente aprimorar sua atuação ou desistir de fazer filmes de conteúdo. Tive a exata impressão de que entre sua deturpação de Lizzy Benett de Orgulho e Preconceito e sua Cecília Tallis de Desejo e Reparação não havia nenhuma diferença sequer. Ela passa simplesmente um histerismo esnobe sem que o espectador se identifique ou entenda suas personagens. Cecília que pelo que aparentou, tinha tudo para ser uma personagem forte, tornou-se meramente uma peça óbvia da história, isso quando não cai no desagradável.
Não tenho uma crítica sequer quanto à direção do filme que conseguiu nos atirar na Inglaterra na Segunda Guerra em todos os sentidos. Desde o clima do meio dos anos 30 até o desespero da quase destruição de uma nação e de relações interpessoais.
A Trilha Sonora, simplesmente perfeita, passa bem com sons de máquina de escrever, a idéia de quanto os delírios imaginativos de uma criança podem conduzir vidas após um ato pequeno numa quase-teoria-do-caos.
Mas o que eu absolutamente mais gostei foi do final. A passagem da tristeza e do arrependimento de Briony para as amarguras de uma velhice bem sucedida porém doente e infeliz, mostrando que as consequências foram sentidas por toda a sua vida. E quando tudo prepara o espectador para querer descobrir como se desenrolou o resto do casamento feliz de Cecília e Robbie, vem a notícia da tragédia e da magnífica e melancólica reparação de Briony. Mostrando mais uma vez o paradoxo entre sua imaginação poder ou não alterar a realidade.
Com certeza este filme deve ser assistido, como deve ser debatido nas diversas questões que deixa ao espectador. É sobretudo uma produção que apesar de Hollywoodiana tem um absurdo conteúdo, semelhante visto apenas em As Horas. Ao menos para mim o critério para se julgar um filme, independente de adaptação ou não de uma obra literária, é do quanto ele se assemelha à sensação de estar lendo um livro, porque isso expressa a profundidade das sensações e personagens, Desejo e Reparação cumpre excepcionalmente essa tarefa.


